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4. O distintivo do Anglicanismo

O que é típico do Anglicanismo é seu modo de aproximar posturas divergentes tentando reconciliá-las no interior da Igreja. Não se trata somente de manter uma Via média, um compromisso, uma ponte, entre visões opostas, mas de encontrar um equilíbrio, uma postura equilibrada.

Esta atitude se baseia na constatação de que a Verdade absoluta ainda não nos é acessível (I Cor 13, 12-13). Há sempre que deixar um espaço para a dúvida, para a possibilidade de o outro estar com a razão. A história e a experiência nos mostram que sempre que esquecemos isso fomos levados ao terror ou a intolerância.

Isso não significa um “pluralismo exacerbado”. Existem limites no Anglicanismo. Mas o que nos caracteriza, nas esferas da vida litúrgica, pastoral e dogmática e muito mais uma atitude acolhedora, flexível, compreensiva e moderada. Como bem afirmou Santo Agostinho de Hipona: “No essencial a unidade, no secundário a liberdade, em tudo o amor”.

Agindo assim o Anglicanismo de modo algum implica numa ruptura com a Igreja Primitiva. Antes pelo contrário, significa um desenvolvimento, uma tomada de consciência daquele espírito original no qual os patriarcados existentes (Jerusalém, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Roma) que possibilitou a Igreja de Cristo chegar ao consenso harmônico fundamentado na liberdade e na responsabilidade mútuas.

5. A Comunhão Anglicana

A Comunhão Anglicana é uma irmandade de igrejas em comunhão com a Sé de Cantuária. Dela fazem parte igrejas anglicanas, católicas, ortodoxas e protestantes. É una comunhão que se expressa em igualdade e companheirismo de vida, em interdependência, em afeto mútuo e respeito. Uma comunhão que reconhece que cada uma das igrejas individuais pertence a Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja de Jesus Cristo e participa da missão de todo o povo de Deus.

Em meados do século XIX a Comunhão Anglicana consistia de três igrejas. Hoje são mais de 38 espalhadas por 147 países, com cerca de 70 milhões de féis em todo o mundo. O anglicanismo atual é um mosaico variado de etnias, línguas e culturas que expressam sua fé, em uma base comum, mas com diferentes matrizes ao som dos mais variados sons e cores. Nosso livro de liturgia, o Livro de Oração Comum, cuja primeira versão apareceu no século XVI, por influencia da Reforma, continua sendo à base de culto do Anglicanismo. As províncias anglicanas (nome dado a uma igreja autônoma) se mantêm unidas seguindo o princípio de subsidialidade, ou seja, as decisões são tomadas no seu próprio nível. Não é necessária uma decisão de um organismo superior, quando se pode governar-se e decidir no nível em que se encontra.

Esta irmandade e comunhão eclesial implicam graves responsabilidades. Significa não tomar decisões unilaterais em assuntos essenciais que possam prejudicar a unidade da comunhão. O anglicanismo afirma o antigo princípio canônico que o que afeta a um deve ser decidido por todos.

6. O desenvolvimento da Comunhão Anglicana

Porém na medida em que a Comunhão foi crescendo foi surgindo à necessidade de se criar organismo ou “instrumentos democráticos” capasses de dar resposta a certas perguntas e inquietações que surgem numa igreja global. Vejamos os mais importantes.

Em 1867 teve inicio a primeira Conferência de Lamberth para responder questões de interpretação bíblica. As Conferências são realizadas a cada dez anos e dela participam todos os bispos da Comunhão. Até o momento a Conferência não tem nenhuma autoridade jurídica, mas somente moral e espiritual. Evidentemente, dado ao seu peso simbólico, as suas decisões acabam acarretando certas obrigações. Isso não quer dizer que essas decisões sejam infalíveis, nem que não possam ser revogadas ou refeitas se necessário.

Na Conferência de Lamberth de 1968 se percebeu a necessidade de se criar um organismo mais dinâmico que atuar - se no intervalo das conferencias. Assim nasceu o Conselho Consultivo Anglicano (ACC) que é um organismo mundial composto por 120 pessoas (bispos, clérigos e leigos).O ACC deu aos leigos e leigas funções importantíssimas na vida igreja.

Também se percebeu que havia a necessidade de se realizarem reuniões menores com os arcebispos e primazes de todas as províncias. Surgiu assim a Reunião dos Primazes (1979). Desde de então os representantes de todas as províncias têm se reunido a cada três anos para tratar de assuntos teológicos, sociais e políticos mundiais. Esta reunião tem ganhado cada vez, mas importância na vida da Comunhão.

Finalmente a figura do Arcebispo de Cantuária como centro da unidade da Comunhão. Ele é o único que pode convocar a Conferência de Lamberth e seu presidente. O Arcebispo de Cantuária não é o “Papa anglicano”. Ele é nosso líder espiritual, reconhecido por todos como “primus inter pares”: o primeiro dentre os iguais.

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